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domingo, 24 de fevereiro de 2008

Um breve ensaio sobre a confiança

Depois da pretensão de escrever sobre a vida e sobre os sonhos, volto a voar em terras que não me pertencem para escrever sobre a confiança.

Uma vez me disseram que a confiança é a base do amor. Foi uma das maiores mentiras que já inventaram. Confiar e amar são sinônimos, mais do que isso, heterônimos. Amor e confiança não se diferem. Somos orgulhosos demais para nos jogarmos em algo sem propósito.

Confiar é deixar-se guiar pelos olhos dos outros, é abrir a mão e tocar a pessoa amada mesmo que não esteja perto, é saber que a qualquer hora do dia ou da noite existe alguém pensado em você. Confiar é por alguém lutar, mesmo que a luta esteja perdida, é fazer o possível e o impossível para não perder.

Quando olhares nos olhos de uma pessoa em quem confias, não procures belas cores, sinceridade, amor ou um brilho qualquer. Procures o seu reflexo. Se estes olhos lhe forem um bom espelho, feche os seus, pois belas cores, sinceridade, amor, e um enorme brilho, com certeza estarão à sua espera do outro lado.

Confio em você, sempre. Peço que confie em mim, mesmo que já tenha dado motivos no passado pra não ser digno dessa confiança. Não tenho como te dar garantia que sou confiável, tenho apenas minhas palavra. E se lhe interessa saber, costumo honrá-la até o fim. Posso também dizer que te amo. Não sei se ajuda muito, mas o coração que tenho, é seu!

Confie e mim

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Este ensaio foi escrito e entregue a uma pessoa muito especial que, por motivos óbvios, omiti o nome. O que não retira nem um pouco a beleza do texto. Deixei para fazer essas considerações no final para que o subjetivismo maculasse a leitura. Espero que tenham entendido. Grande abraço a todos. Até o próximo texto

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Ensaio prático sobre ser só

Quando o convidaram ao teatro, deveriam saber que pouco se importa com atores e suas interpretações de textos que melhores aproveitados seriam caso transformados irremediavelmente em livros. Ainda assim, mesmo com toda aquela úlcera e olhos tristemente cansados, ergueu seu corpo em direção ao guarda-roupas e festivamente apanhou dentre a monocromaticidade um raro exemplar de camiseta branca. O calor desgraçado a que já se reacostumara desde que retornou de Milão só lhe servia para escolher modelos horrendos que, se não lhe fosse a necessidade, negaria usá-los veementemente. Dirigiu-se, completamente nu, ao banheiro, encarou o próprio rosto e se viu obrigado a encarar a navalha para tirar aquele ridículo bigode que cultivava de seus idos tempos – ou amores - italianos. Quase que automaticamente, cantarolava “O barbeiro de Sevilha”. Quase que maquinalmente, deflorou três linhas de sangue, rios que fluíam e se perdiam gotejantes na pia branca. Após o banho, vestiu a desconfortável mas necessária roupa e foi para o local combinado.
O teatro – talvez um codinome para exibicionismo arquitetônico – recebia todos os estilos de arte que houveram, haviam e, nas mentes fantasiosas de artistas, haverão de existir. Quando após dezenove minutos não avistou nenhum conhecido e viu as últimas gentes adentrarem o lugar, lembrou-se: esqueceram-me! Suavemente, levantou uma sobrancelha, tocou o próprio queixo e foi andando ao longo de sete quilômetros que urgentemente se mostravam para o homem. Faltando quatro quilômetros para o fim do percurso, tropeçou numa pedra infortúnea, a quem chutou pelo resto do caminho. Esse era o seu favorito exercício de solidão. Vinte e três minutos faltavam para o fim previsto da peça e vinte e três minutos levou até que abandonasse num disparo solitário a pedra solitária que lhe fez companhia em sua solidão.

Aquele ato covarde de chutar uma pedra trouxe-lhe À memória Beatrice, trouxe-lhe Caruzo e seus uísques, trouxe-lhe a si mesmo noutros tempos. Lembrou-se inutilmente de que havia se transformado num homem amargo por causa de lábios incrivelmente doces que lhe foram arrancados pela impaciência da morte – mesmo ele gritando “leva-me a mim!, leva-me a mim, desgraçada!”. Todos morrem menos a morte. Pensou em destruir a morte tentando assim reconstruir-se. Meros devaneios solitários, nem mesmo aquela pedra tão sozinha no mundo demonstrou compaixão nesse momento. Bastou sussurrar no vento como se no ouvido dela na hora intimamente carnal e amorosa “Beatrice” para que a pedra parasse. Aquela lembrança, não. Beatrice tinha os olhos verdes e tentava o português com doce sotaque. Beatrice estudava as leis e conhecia o Brasil. Beatrice conhecia a história da Europa, já morou na África. Beatrice tinha os olhos verdes. Verdes. O homem, tal qual a pedra, parou-se. Deixou a lágrima fluir feito horas antes os rios de sangue e percebeu as primeiras gentes saírem do grande teatro. Desesperado, chutou forte a pedra.
Encontrou seus quatro conhecidos e fingiu um riso qualquer. “A pedra, talvez, foi amiga”, pensou anos depois ao entrar pela primeira vez em vinte anos num teatro.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Para aqueles que não entregam cartas

Tudo nessa vida tem um sentido, cada um de nós tem um papel a cumprir e uma carta a entregar.

Cartas não deveriam ser entregues. Cartas deveriam ser, simplesmente, anunciadas. Se eu um dia me metesse a escritor de cartas, nunca as entregaria. O que pensariam as pessoas ao saberem que tinham comigo uma carta que lhes pertencia, mas que nunca a receberia? Pensariam coisas fúteis, sérias, infantis, românticas, dramáticas. Efeito fantástico esse. Seria um feito incrível, ter minhas cartas reescritas todos os dias, por cabecinhas férteis: Qualquer momento de ócio serviria para mirabolar minhas tenras palavras em um pedacinho de papel.

Mas e ai? As palavras não seriam minhas, a escrita não seria minha, a carta não seria minha. Nunca me faria ouvir, nunca exporia meus reais sentimentos, jamais saberiam quem realmente sou. Meu momento de tristeza e lágrimas gotejadas no papel ficariam para sempre engavetados junto com uma carta nunca entregue. Minha vida ficaria a deriva, num mar de outras palavras que num dado instante fizeram sentido, mas que hoje não fazem nem tocam coisa alguma.

Cartas anacrônicas, essas sim, ficariam comigo sempre, para que crescesse, risse, chorasse, me envergonhasse ou me orgulhasse a cada releitura. Mesmo assim, algum dia me cansaria e me arrependeria de não ter-las entregue a um destinatário, que não eu.

Pense naquele olho brilhando ao receber um envelope direto, sem intermediários, sem carteiros, sem protocolos e burocracias. Pense naquela lágrima manchando a tinta da caneta. Não tem arte exposta em museu que se compare ao efeito de uma gota borrando o papel em uma carta. Não mesmo. Pense, no fim de tudo, em como seria bom ter todas as cartas prometidas bem debaixo do travesseiro...


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Nota do autor: Este ensaio foi escrito com o único intuito de convencer uma amiga a entregar-me uma carta que havia escrito, mas estava relutante em postá-la. Parece que deu certo. Em menos de duas semanas já estava com minha carta em mãos. E acreditem, valeu cada palavra!