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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Despalavra

Ela na minha boca. Um puslo: impulso. Ela animal, explosiva, se explodindo mesmo ali. Eu medo. Ela loucura. Eu gosto, ela papilas. A mulher se abrindo, suas carnes à carne. A carne subersiva. A mulher e seus sortilégios. Nenhuma voz – toda voz.

Eu agora longe. Ela rainha observadora, olhares despóticos. Minhas papilas ainda ela. Ela vitoriosa, assistindo a um servo. Eu vitorioso, assistindo imperialmente o voo. E o tempo inexistindo. Este é o instante após. O instante da despalavra.

Antes, na palavra, ela era elas. Ela gritava, na palavra encontrava repouso na palavra encontrava tormento na palavra representação. Na língua a satisfação. Na língua a despalavra vindo. Eu então era um invocabulador esta tarde.

Antes, na palavra: memória. A despalavra está na imemória, está no sensacional. O que se sente não se lembra. Sentir é in-ato. Os atos se lembram, as palavras...as despalavras dexistem, por fim.

Na carne o fim do diálogo. A corrupção de qualquer dialética. A síntese levando à antítese, à tese. Ela, eu. A dependência da palavra para o ser.

Amor. Amor, desposses. Impossível. Impossíveis. O ter nunca tendo, o paradoxo camoniano e mais. A perda. O reconhecimento do amor é o início da perda. Ela sabe isso. Ela me abraça sempre, me tem enquanto me perde. Me tem e eu não me tendo. Eu e essa sozinhez, essa minha.

A sozinhez, esse instar todo nosso, a questão das questões, a dúvida, vida. A vida termina a dúvida. A dúvida na vida inteira. A sozinhez escravizando a gente, a gente indo servir. A sozinhez, uma solidão nossa, eterna. Desde nascer até morrer. Ela carnes não tateia sozinhezes...ela me ama, apenas. Ela carne, dizendo meu nome -a minha carne.

E então recomeça: Ela na minha boca – o seu nome. A incursão na despalavra.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Lamar

Por estes lados, muitas noites se afugentam em bares que abrigam a arte - a irônica arte de existir. A cada gole de cachaça brasileira nasce um verso. Pouco me importo com isso. Existiu em Viana um grande lugar obscuro chamado "Pont'art", com suas madeiras escuras corroídas pela tristeza de toda a gente e focos disformes de luz. No fundo do bar – que era português mesmo, visto o fado – havia uma seleta roda de jogadores de dardos. Em Lisboa, quando criança, fui fascinado por jogos de arco-e-flecha, mas a adolescência beberrona e musical levou-me logo a perceber que nos dardos fatais eu encontrava meu jogo de talento. O frio que consumia Viana mais parecia brotar dos alegres olhos tristes dos que se punham às mesas. Por cerca de três horas, lucrei dinheiro suficiente para estender minha permanência na cidade por mais um longo e iliterário mês. Quando se escasseavam os adversários, aproximou-se-me um homem que não diria velho por trás de sua face curiosa e sua mal-feita barba a devorar-me com os olhos, como se nos conhecêssemos. O homem que me parecia mais olhos em suas palavras poucas disse-me que há muito não atirava um dardo. Começamos a partida, amistosa apenas, com minha vitória ao fim.

Sentamo-nos a beber – prêmio por ele me oferecido graças a minha vitória – e a conversar. Lamar tinha voz firme e sotaque de Lisboa. Falava inglês e sabia todos os fados. Eu, que estava a terminar um livro, encontrei-o escritor e conversamos um pouco sobre literatura, vida e outros desesperos mais que a noite encravada no bar nos oferecia como tema. Lamar estranhou-me gosto por álcool mas logo acompanhou-me ao ponto de nossa mesa solitária na quase manhã não comportar as garrafas. Gentilmente deu-me o telefone e endereço para contato em Lisboa, para onde voltei só depois de sete meses.

Cansado de uma vida indignamente morta, abandonei Viana após minha última tentativa de amar mulher que fosse e quando de volta a Lisboa, logo na primeira tarde após minha chegada, tenho como notícia num jornal o lançamento de um livro assinado por Lamar de Alcântara logo na segunda-feira seguinte e decididamente pus-me a aguardar a data para que reencontrasse o tal com quem conversei e talvez a única pessoa a quem consegui ter amizade logo.

A livraria tornara-se pequena para as crianças que pareciam gostar dos livros de Lamar – um tipo realmente infantil, na inocência do sentido – e os adultos fervorosamente cumprimentavam-no. Após todo o assédio, sentamo-nos a conversar, e falei-lhe sobre temas literários atuais, dentre eles o blog, cujo assunto demonstrou-me interesse, e então convidei-o, certo do talento deste grande escritor, a participarmos juntos de um e eis-nos aqui, dividindo nossas impossessivas linhas.



 

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Borba de Magalhães

Era inverno em Viana e eu, Lamar de Alcântara, quase não conseguia sentir a periferia do meu corpo. Viana do Castelo, uma cidadezinha no extremo norte de Portugal é famosa por suas casas em pedra, e um enorme castelo no centro da cidade. Fui atraído pela calma que o lugar inspirava, principalmente no inverno. Saí da movimentada Lisboa e por vários dias ficamos somente eu e os ventos cortantes daquele inverno rigoroso (como há muito tempo eu não experimentava)

Depois de dias solitário, escrevendo e bebendo ótimos vinhos, decidi que era hora de conhecer pessoas novas. Fui a um bar local. Não estava muito cheio. Somente algumas pessoas sentadas em mesas esparsas. A madeira antiga e escura e a iluminação precária davam um ar rústico ao local – Imagino que não de propósito. A temperatura interna era bem mais agradável e caixas de som velhas e desgastadas tocavam um fado a uma altura tolerável.

Acomodei-me num espaço vago do balcão e pedi ao velho, que parecia ser também o dono do lugar, um pouco conhaque e uma porção de bolinhos fritos. Prontamente pegou uma taça empoeirada no fundo de um armário, serviu-me e avisou que “os bolinhos já estavam a sair”.

Depois de alimentado e devidamente aquecido continuei a fitar os freqüentadores que haviam restado no local, afinal de contas as horas se arrastavam, e a noite já se preparava para engolir o dia. Algumas pessoas conversavam, outras bebiam e poucos se deitavam sobre a mesa a fim de dormir e curar a bebedeira precoce. Uma pessoa em especial me chamou a atenção; tratava-se de um jogador de dardos. Sujeito alto, que não parecia ser dali. Aparentava ser um pouco mais novo que eu. Feições simples, óculos, pouco cabelo e extrema habilidade em fazer pontos em jogos de dardos.

Dirigi-me ao sujeito e perguntei se queria companhia para um jogo amistoso. Desde idos tempos em pubs ingleses (mais precisamente em Bristol) que não atirava um dardo sequer. Antes de iniciarmos o jogo alertei-o de minha condição debilitada e falta de prática no esporte – tanto neste como em qualquer outro. Sorte melhor não me aguardava; fui derrotado com uma facilidade absurda.

Ao fim da partida, percebi que o homem falava em versos. Um trovador. Ofereci uma bebida em reconhecimento à vitória. Aceitou e então conversamos. Descobri seu nome: Borba de Magalhães. Também escritor. Também de Lisboa que tinha ido a Viana para tentar terminar um livro que começara escrever havia muito tempo. Tinha muita coisa publicada, tanto em poesia quanto em prosa, mas dizia que estava terminando uma obra prima. Fiquei absorto ao descobrir que o poeta tentava terminar este livro desde seus dezesseis anos (e acreditem, isso me pareceu ser bastante tempo, a julgar pela sua aparência).

Ao final da conversa, só restavam nos dois e um amontoado de garrafas vazias na velha taverna. Dei-lhe meu endereço em Lisboa e telefone para que pudéssemos manter contato. Nunca mais o vi.

Até que, já na capital, estava eu em uma livraria a divulgar um livro de poemas infantis encomendado por uma editora, quando de repente vejo bem em minha frente o atirador de dardos. Sim, Borba leu num jornal onde eu estaria, e achou que seria interessante prestigiar. Fiquei lisonjeado quando o vi segurando meu fino livro que acabara de comprar.

Após o assédio incomum de pais e crianças, conversamos por horas sobre diversas coisas. Apresentou-me algumas modernidades com as quais ainda não tinha contato. Dentre elas, esse diário eletrônico.

Propôs-me que escrevêssemos e publicássemos em um só lugar. Já conhecendo a capacidade literária de meu co-autor, aceitei prontamente.

Então, cá estamos escrevendo e publicando nossos rabiscos. Gostaria que lessem com tanto carinho quanto é escrito. Espero que gostem. Boa leitura

domingo, 18 de novembro de 2007

Ódio alexandrino

Homem não ama. Foi exatamente essa a frase que a ouvi dizer antes de fechar o livro que com tanto carinho indiquei. Tamanha falta de tato a dela, por pouco estive por desdizê-la. Segurei-me. Homem não chora também. Mas veja você que depois de dizer aquilo, ela sorriu-me como se fosse maio e apenas o som do violino celebrasse alguma paixão. Veja você!, apesar de toda a crueldade daquela frase, eu a amava. A amava não porque eram castos seus cabelos ou o som de sua voz. Amava-a porque queria cuspir nela o desaforo de amá-la. Repudiei-me por duas noites depois de perceber essa sujismundície de sentimento.
Quando acordei dia sete de setembro, a praça se incendiava em fogos e flashes e gritos. Dei apenas um suspiro. Nada tinha eu de especial ou de diferente daquelas pessoas que comemoravam, ironicamente, independência. Nada tinha eu também que escrever a ela uma carta mal-educada, dizendo que homem sim amava e que eu era a maior prova. Até soneto consegui fazer espontaneamente para ela. Fiz um alexandrino. O lixo gostou bastante daquelas palavras. Eu novamente me via nu e fraco.
Agora já se contavam duas semanas que não a via. E ardia em mim a fome de matá-la. Queria tocar a mão dela desesperadamente e receber de volta o sorriso cru, como se fosse dezembro e o Natal nada fosse. Queria-a ácida. Nada que um bom terno não resolvesse. Fui até a livraria, por conta própria comprei o que o poeta disse, "ferida que dói e não se sente" e com um contentamento todo descontente entreguei a ela, em mãos, cabelos, abraços e beijo. E sim, disse a ela que a amava e que todo aquele tempo nada me foi útil, exceto para abandonar minha vida. Mentira minha, porque havia cinco dias tinha feito a barba, havia quatro tomei café e ainda ontem comprei-me o terno que à hora usava. Ela sorriu. Era má comigo! Convidou-me para entrar - mas já esava bem dentro, com meu corpo sobre o seu.
Passou-se assim até dezenove de outubro, quando me lembrei de perguntar a ela se homem amava. E ela me sorriu, ah, sempre o sorriso! Na verdade, nunca odiei tanto uma mulher como odiei Clarisse.