quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Viagem de Volta (parte I)

Os dias passavam e em todos eles descia aquele enorme morro escutando a mesma música japonesa e pensando nos beijos que ainda não havia dado. A música era um pouco animada e falava alguma coisa sobre flores. Não sabia, às vezes, simplesmente gostaria que falasse de flores e de beijos. Ficava sempre esperando que a música acabasse pra que começasse a ler. Lia poesias de um poeta chinfrim que lhe dera um livrinho com seus poemas igualmente chinfrins enquanto andava por uma praça no centro da cidade.

Durante a música japonesa que falava de flores e de beijos pensava naquela e na outra. Sentia-se culpado. Não poderia pensar nas outras. Tinha de pensar Nela! Escrevia contos vagabundos ao chegar em casa. Não sentia a menor vontade de continuar fazendo o que fizera anteriormente. Sentia a vontade única de ganhar na loteria e sair pra bem longe. A sorte de outrora não lhe acompanhava mais. Sentia-se largado ao léu, à deriva do destino, sem uma bússola norteadora de sentidos. Poucas vezes sentira tanto a falta de uma faca em seu peito como naquela hora. Talvez naquele dia em que desligou o telefone no meio da rua, ou... Não, nunca sentira tanta vontade de ter uma faca cravada bem fundo em seu peito.

Qual era a sua culpa? Havia simplesmente acabado. Ela era única que não percebia. Nada mais dava certo. Até mesmo o certo dava errado. Como um imã atraia outras e outras que eram sistematicamente ignoradas. O bem-querer era o único fio que os mantinham ligados. Fio tenro que não era suficiente para uni-los novamente.

Da janela daquele mesmo ônibus, onde escutava aquela mesma música japonesa que falava de flores e beijos, olhava para o alto e desejava com todas as suas forças que sua vida fosse guiada por um narrador onipotente e onipresente, mas também com outro atributo menos vigoroso, porem de maior utilidade no momento: piedade.

Procurava, durante toda descida, respostas para perguntas que nem sequer faziam sentido. Teimavam em cair algumas lágrimas agridoces, mas isso já era comum. Temia até mesmo ter algumas alcunhas correntes na boca dos outros usuários do ônibus. Para ser mais franco, não temia. Tinha uma ligeira vergonha, mas era só isso. Questionava inclusive a utilidade de seus questionamentos, mas quando chegava a esse ponto, já estava na hora de trocar de ônibus....


...Continua...

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Achei que este conto tomou um tamanho exacerbado, portanto, divido-o em duas partes para não cansar os queridos leitores que me brindam com a vossa presença. Grande abraço

P.S.: De volta de viagem, aguardem novíssimos contos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Vésper

A tua pele se desfaz no capricho
de meu toque rápido e violento:
Teu nome escrevo sob o firmamento
E desperto em mim a fúria de bicho

És Vésper, esplendor de estrela vã
És Lua, desamor de luz quebradiça
És Terra, com água pura que enfeitiça
Sou nada a transbordar minh'alma insã

E tu, quando no devorar noturno
Vens e açoita-me com o teu desejo,
Dize-me palavra suja, logo vejo

Sumir-se em teu beijo meu ar soturno
E tu, que és mais que tudo minha estrela,
Vais aos céus e mais linda posso eu vê-la.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Lamar

Por estes lados, muitas noites se afugentam em bares que abrigam a arte - a irônica arte de existir. A cada gole de cachaça brasileira nasce um verso. Pouco me importo com isso. Existiu em Viana um grande lugar obscuro chamado "Pont'art", com suas madeiras escuras corroídas pela tristeza de toda a gente e focos disformes de luz. No fundo do bar – que era português mesmo, visto o fado – havia uma seleta roda de jogadores de dardos. Em Lisboa, quando criança, fui fascinado por jogos de arco-e-flecha, mas a adolescência beberrona e musical levou-me logo a perceber que nos dardos fatais eu encontrava meu jogo de talento. O frio que consumia Viana mais parecia brotar dos alegres olhos tristes dos que se punham às mesas. Por cerca de três horas, lucrei dinheiro suficiente para estender minha permanência na cidade por mais um longo e iliterário mês. Quando se escasseavam os adversários, aproximou-se-me um homem que não diria velho por trás de sua face curiosa e sua mal-feita barba a devorar-me com os olhos, como se nos conhecêssemos. O homem que me parecia mais olhos em suas palavras poucas disse-me que há muito não atirava um dardo. Começamos a partida, amistosa apenas, com minha vitória ao fim.

Sentamo-nos a beber – prêmio por ele me oferecido graças a minha vitória – e a conversar. Lamar tinha voz firme e sotaque de Lisboa. Falava inglês e sabia todos os fados. Eu, que estava a terminar um livro, encontrei-o escritor e conversamos um pouco sobre literatura, vida e outros desesperos mais que a noite encravada no bar nos oferecia como tema. Lamar estranhou-me gosto por álcool mas logo acompanhou-me ao ponto de nossa mesa solitária na quase manhã não comportar as garrafas. Gentilmente deu-me o telefone e endereço para contato em Lisboa, para onde voltei só depois de sete meses.

Cansado de uma vida indignamente morta, abandonei Viana após minha última tentativa de amar mulher que fosse e quando de volta a Lisboa, logo na primeira tarde após minha chegada, tenho como notícia num jornal o lançamento de um livro assinado por Lamar de Alcântara logo na segunda-feira seguinte e decididamente pus-me a aguardar a data para que reencontrasse o tal com quem conversei e talvez a única pessoa a quem consegui ter amizade logo.

A livraria tornara-se pequena para as crianças que pareciam gostar dos livros de Lamar – um tipo realmente infantil, na inocência do sentido – e os adultos fervorosamente cumprimentavam-no. Após todo o assédio, sentamo-nos a conversar, e falei-lhe sobre temas literários atuais, dentre eles o blog, cujo assunto demonstrou-me interesse, e então convidei-o, certo do talento deste grande escritor, a participarmos juntos de um e eis-nos aqui, dividindo nossas impossessivas linhas.



 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Brigas e Corações

Já passava de duas da manhã, ou era três? Ele se revirava na cama sem poder dormir. Os fogos de reveillon ainda ecoavam em sua cabeça. Mais constante que isso só a imagem dela, em sua melhor fotografia, marcada a ferro e fogo em sua cabeça. Os gritos daquela última briga ocupavam o espaço restante em sua cabeça. Discutiam por nada, ou por tudo. Qualquer coisa já era um motivo suficiente. Uma saia mais curta, ou dez minutos de atraso...

Será que daquela vez era definitivo? Pensara assim todas as outras vezes. Mas dessa vez era diferente. Aquele tom, ela nunca tinha usado. Nunca antes havia saído assim, sem dar notícias, nem voltado tão tarde.

Levanta, olha as horas, não as assimila, olha por olhar. Vai ao banheiro, lava o rosto, bebe água e se olha no espelho. Não reconhecia o próprio rosto. Sem ela, era irreconhecível até mesmo para seu eu lírico. Eu – pensou – palavra que há muito não usava. Preocupava-se mais com o Nós do que com o Eu. Seria esse o erro? Já ouvira falar, nessas telenovelas, que muitos casais se separavam falta de Nós, nunca por excesso.

Perdera totalmente a noção do tempo. A cronologia não lhe fazia mais sentido. Levava consigo mesmo, uma vida anacrônica. O anel na mão esquerda acusava cinco anos. Em sua mente, o limiar entre o amor e a circunspecção afinava-se a cada pensamento com o nome dela.

Aquela porta maldita não se abria. Aqueles cabelos dourados teimavam em não chegar. Aquela boca doce teimava em não falar que sentia muito por tudo, e que lhe amava. A vida teimava em ser real.

Lera uma vez, também não se lembra onde, que as brigas afastam os corações. Teriam brigado tão constantemente que os corações não sabiam mais o caminho de volta? Quanta bobagem. Corações não andam, corações não pensam, corações não amam. Corações apenas batem.

Naquele mesmo momento, enquanto divagava sobre seu reflexo, o tempo, a porta e os corações, a porta se abre, seu semblante muda, e seu coração palpita mais forte. Era ela, naquele mesmo vestido branco, que corre até o banheiro e abraça forte.

Sinceramente, não fazia mais a menor diferença quem brigara primeiro, ou de que lado imperava a razão. O caminho de volta ela ainda conhecia. E se não o lembrasse, poderia seguir o mesmo brado cordial que a guiara todas as outras vezes.

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Este que vos escreve vai sair por um período de férias. Nada de blog por alguns dias. Mesmo assim, não deixem de passar por aqui. Terão diversão e boa leitura garantida pelas mãos do meu grande amigo Borba! Um grande abraço a todos

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Homem

Atravessando a rua, talvez num ato de soberba, confundi às faixas todos os outros. Parei. Toquei-me a face. Mexi minha outra mão. Senti os ossos, os lábios. Não senti a palavra, não senti de minha mão o carinho, nem senti de meu rosto o espanto. Senti-me vivo, animal, irracionalmente homem.

Um carro se aproxima, freia, diz palavrão. Eu ainda vagante, descobridor de mim, apenas choro. Continuo absorto minha caminhada. Pela calçada, dezenas de corações, pensamentos, idéias, dúvidas me passam ao lado, esbarram - alguns xingam. E passam acompanhadas a isso pessoas. Cidadãos que têm olhos, lábios, orelhas, alguns colhões, alguns óculos, aguns ternos. Animais levemente racionais que trilham seu percurso sem se importar com a flor a morrer na árvore ou a nuvem a migrar. E eu existindo, no meio de tudo isso.

De repente, o mesmo animal que caminhava, agora pára. Feito máquina ergue o pulso direito, maquinalmente também compreende a linguagem dos ponteiros e se espanta (gesto facial que a face não possui, está cedido eternamente ao momento). Entra no prédio. Cumprimenta alguém - que passa e existe mas talvez não tenha percebido - e entra no elevador. O espelho é um confronto. Aquela pupila direita esquerdamente lhe encarando e aqueles cabelos grisalhos suavizando o que é amedrontam-no. Ele é matéria! Destrinchando cada célula, cada átomo, partícula inquebrantável que haja em si, despede-se daquele abismo refletido e avista a porta de seu apartamento.

Eu toco a porta, ela não é viva, não chora ou ri, mas tenho nesta porta a lembrança da carne que me dissolveu e nesta carne a certeza infundável do amor. Distante, abro a porta e um cheiro vem. O costumeiro aroma e a doce voz temperando o clima de meu lar são intocáveis. são indestrutíveis no átimo em que acontecem. Uma mulher já não tão loira com olhos que eram antes o Tejo me sorri. Vivo agora a emoção de dezessete anos antes, quando pela primeira vez cheguei do jornal à casa minha, e ela na mesma posição estava. Mudou-se o sofá, a tinta, o piso, a cor dos cabelos, do sorriso, do avental, mas o gesto é momoravelmente o mesmo. Abraço-a, respondendo a um singelo sim à sutil pergunta medrosa sobre se estou bem. Me beija, beijo-a. Ao relento de bons tempos, a cama abriga amantes velhos como se hoje descobridores da essência do prazer. Saio dela para estar mais profundamente e humildemente nela. Balbucio meu amor, acendo o abajur e inicio isto. Existo, irremediavelmente (seria a morte um remédio?) existo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Sombra

Entrou no carro disposta a acabar com tudo. Já não suportava mais aquilo. Tomou coragem, puxou fôlego como a muito não se via puxar, olhou para o pára-brisa um pouco molhado da garoa comum nas tardes setembro e girou a chave. O carro fazia barulho, imóvel, como se quisesse dizer alguma coisa. No banco havia cartas, cartões, fotografias, chocolates e tudo mais que viveram juntos.

Não haviam combinado nada. Pretendia pegá-lo de surpresa, de preferência, em algum momento constrangedor. Atirou-se estrada afora. Não era longe. Alguns quilômetros depois já estaria na casa dele. Ensaiara durante dias o que iria dizer naquele momento. Havia decorado não mais que trinta palavras. Seria curta. Sabia que se se embestasse a falar, seria mais uma vez convencida.

Ainda era nova. Sequer começava a apresentar os sinais do tempo, geralmente tão cruel entre as mulheres. Dividia seu tempo entre seu trabalho e a pós-graduação que há pouco começara a fazer (menos por vontade própria, mais por insistência da mãe). Arrumara um ou outro namorado durante a vida. Mas não conseguiu gostar de ninguém como gostava dele.

Ele era bem sucedido, meia idade – até mesmo já havia comprado um carro importado -, casado, dois filhos – para ser mais exato: duas filhas. Duas lindas princesas com nomes bíblicos e qualquer coisa entre doze e catorze anos.

Atirou-se no trânsito. Velocidade moderada, música alta e muitas idéias na cabeça. No caminho não continha as lágrimas (não fazia questão alguma de contê-las). Meia hora depois, lá estava – A casa dele. Uma casa enorme, num bairro chique, afastado dos barulhos do centro e do mundo real.

Fitou a porta por longos quarenta minutos. Pareceu uma eternidade. Não viu nenhuma movimentação em casa. O avançar da hora também não ajudava. Já deviam estar dormindo – pensou enquanto respirava como se o ar fosse acabar em minutos. Decidiu que entraria, mesmo assim. Não teria tanta coragem assim outra vez.

Deixou os devaneios de lado e entrou utilizando-se de uma cópia da chave que havia ganhado há tempos, para que entrasse sorrateiramente enquanto a pobre esposa não estivesse.

Pé ante pé, o coração batia coladinho a sua garganta. Úmida de chuva, ainda deixava suas pegadas nas primeiras salas da casa. Algumas luzes ainda acesas, o que indicava que havia alguém em casa. Aprofundando-se um pouco mais, como aquela arqueóloga que andava pela primeira vez uma caverna nunca visitada, encontrou uma televisão ligada.
Neste mesmo instante, deparou-se com ele voltando da cozinha com um copo de whisky numa mão salgadinhos noutra e um sorriso surpreso:

- O que você está fazendo aqui? – Disse ele com uma calma incomum, enquanto degustava sua bebida.

- Preciso terminar tudo. Nosso caso não está certo!

- Tudo bem... – Balbuciou enquanto dirigia-se ao sofá para assistir o programa recém voltado dos comerciais.

- Onde está sua família?

- Viajaram. Foram passar o fim de semana na fazenda.

- E por que você ficou?

- Tive reunião na firma. Acabei de chagar, não dá pra perceber?

De fato dava. Ainda vestia o terno e a gravata parecia que fora modestamente afrouxada a pouco.

- Bom. Mas é isso que eu queria te dizer. Não podemos continuar nos vendo.

- Você sempre diz isso. – Resmungou ele, enquanto se entretinha com os indicadores financeiros do jornal da noite.

- Dessa vez é verdade. Preciso de alguma coisa real na minha vida. Não posso ficar me escondendo pelos cantos. Ser só a outra não me basta mais. – Balbuciou de forma ríspida, já sem conseguir conter as lágrimas.

Manteve-se um silencio.

- Você não está acreditando, não é? Pois bem. Aqui estão suas chaves. Não as quero mais. Boa noite.

- Fique mais. Tome um whisky. Não está com fome?

- ...

Ela ficou parada, estarrecida com tamanha indiferença.

- Tudo bem, já estou com sono. Vou me deitar. Quando acabar de assistir a TV, desligue-a e me encontre no quarto. Estou te esperando.

Deu-lhe um beijo no canto da boca e saiu em direção ao quarto.

Ele não esperava tal reação, mas na manhã seguinte ao levantar deparou-se com a TV ainda ligada e um singelo recado debaixo do molho de chaves que dizia: Dessa vez é verdade. Seja feliz, pois eu serei.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Ensaio prático sobre ser só

Quando o convidaram ao teatro, deveriam saber que pouco se importa com atores e suas interpretações de textos que melhores aproveitados seriam caso transformados irremediavelmente em livros. Ainda assim, mesmo com toda aquela úlcera e olhos tristemente cansados, ergueu seu corpo em direção ao guarda-roupas e festivamente apanhou dentre a monocromaticidade um raro exemplar de camiseta branca. O calor desgraçado a que já se reacostumara desde que retornou de Milão só lhe servia para escolher modelos horrendos que, se não lhe fosse a necessidade, negaria usá-los veementemente. Dirigiu-se, completamente nu, ao banheiro, encarou o próprio rosto e se viu obrigado a encarar a navalha para tirar aquele ridículo bigode que cultivava de seus idos tempos – ou amores - italianos. Quase que automaticamente, cantarolava “O barbeiro de Sevilha”. Quase que maquinalmente, deflorou três linhas de sangue, rios que fluíam e se perdiam gotejantes na pia branca. Após o banho, vestiu a desconfortável mas necessária roupa e foi para o local combinado.
O teatro – talvez um codinome para exibicionismo arquitetônico – recebia todos os estilos de arte que houveram, haviam e, nas mentes fantasiosas de artistas, haverão de existir. Quando após dezenove minutos não avistou nenhum conhecido e viu as últimas gentes adentrarem o lugar, lembrou-se: esqueceram-me! Suavemente, levantou uma sobrancelha, tocou o próprio queixo e foi andando ao longo de sete quilômetros que urgentemente se mostravam para o homem. Faltando quatro quilômetros para o fim do percurso, tropeçou numa pedra infortúnea, a quem chutou pelo resto do caminho. Esse era o seu favorito exercício de solidão. Vinte e três minutos faltavam para o fim previsto da peça e vinte e três minutos levou até que abandonasse num disparo solitário a pedra solitária que lhe fez companhia em sua solidão.

Aquele ato covarde de chutar uma pedra trouxe-lhe À memória Beatrice, trouxe-lhe Caruzo e seus uísques, trouxe-lhe a si mesmo noutros tempos. Lembrou-se inutilmente de que havia se transformado num homem amargo por causa de lábios incrivelmente doces que lhe foram arrancados pela impaciência da morte – mesmo ele gritando “leva-me a mim!, leva-me a mim, desgraçada!”. Todos morrem menos a morte. Pensou em destruir a morte tentando assim reconstruir-se. Meros devaneios solitários, nem mesmo aquela pedra tão sozinha no mundo demonstrou compaixão nesse momento. Bastou sussurrar no vento como se no ouvido dela na hora intimamente carnal e amorosa “Beatrice” para que a pedra parasse. Aquela lembrança, não. Beatrice tinha os olhos verdes e tentava o português com doce sotaque. Beatrice estudava as leis e conhecia o Brasil. Beatrice conhecia a história da Europa, já morou na África. Beatrice tinha os olhos verdes. Verdes. O homem, tal qual a pedra, parou-se. Deixou a lágrima fluir feito horas antes os rios de sangue e percebeu as primeiras gentes saírem do grande teatro. Desesperado, chutou forte a pedra.
Encontrou seus quatro conhecidos e fingiu um riso qualquer. “A pedra, talvez, foi amiga”, pensou anos depois ao entrar pela primeira vez em vinte anos num teatro.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Para aqueles que não entregam cartas

Tudo nessa vida tem um sentido, cada um de nós tem um papel a cumprir e uma carta a entregar.

Cartas não deveriam ser entregues. Cartas deveriam ser, simplesmente, anunciadas. Se eu um dia me metesse a escritor de cartas, nunca as entregaria. O que pensariam as pessoas ao saberem que tinham comigo uma carta que lhes pertencia, mas que nunca a receberia? Pensariam coisas fúteis, sérias, infantis, românticas, dramáticas. Efeito fantástico esse. Seria um feito incrível, ter minhas cartas reescritas todos os dias, por cabecinhas férteis: Qualquer momento de ócio serviria para mirabolar minhas tenras palavras em um pedacinho de papel.

Mas e ai? As palavras não seriam minhas, a escrita não seria minha, a carta não seria minha. Nunca me faria ouvir, nunca exporia meus reais sentimentos, jamais saberiam quem realmente sou. Meu momento de tristeza e lágrimas gotejadas no papel ficariam para sempre engavetados junto com uma carta nunca entregue. Minha vida ficaria a deriva, num mar de outras palavras que num dado instante fizeram sentido, mas que hoje não fazem nem tocam coisa alguma.

Cartas anacrônicas, essas sim, ficariam comigo sempre, para que crescesse, risse, chorasse, me envergonhasse ou me orgulhasse a cada releitura. Mesmo assim, algum dia me cansaria e me arrependeria de não ter-las entregue a um destinatário, que não eu.

Pense naquele olho brilhando ao receber um envelope direto, sem intermediários, sem carteiros, sem protocolos e burocracias. Pense naquela lágrima manchando a tinta da caneta. Não tem arte exposta em museu que se compare ao efeito de uma gota borrando o papel em uma carta. Não mesmo. Pense, no fim de tudo, em como seria bom ter todas as cartas prometidas bem debaixo do travesseiro...


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Nota do autor: Este ensaio foi escrito com o único intuito de convencer uma amiga a entregar-me uma carta que havia escrito, mas estava relutante em postá-la. Parece que deu certo. Em menos de duas semanas já estava com minha carta em mãos. E acreditem, valeu cada palavra!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Nunca

Ela nunca partiu, nunca a dei chances de se fazer presente. Eu acreditei que o amor seria apenas luz. E a saudade seria aquele constante olhar. Então agora ela fecha os olhos.
De um dos maiores mistérios da minha vida, o amor se tornou a dor inesperada. Dela sei o nome. Sequer reconheceria sua voz. Ainda me queimo ao tentar me lembrar de sua imagem. Conversamos, sim!, foi bom terem inventado a escrita. Mas as palavras escritas saem sem voz, mesmo que gritadas. O que mais me sangra é perceber que eu poderia ter ido até ela, ainda que com um copo lotado de café em mãos, e perguntado se aquele dia lhe pareceria azul também. Tive medo de ela responder que sim.
No começo, fui todo lamentações, como sou agora, e ela só fazia concordar. Tenho alguma coisa com a tristeza, só não sei bem o quê. Depois fiquei feliz, mas ela, sei lá porque, não me acompanhou. Fez uma falta que jamais imaginei sentir tão intensamente. Aparecia-me o rosto dela em cada manhã. Eu a buscava – mentia para meu coração, mas a buscava.
A caneta e a tinta preta combinam com minha barba por fazer. Jornais sempre me deprimiram, mas nenhum como o de quinta-feira. Ainda não tirei minha blusa cinza, gosto de combinar com as nuvens. O que resta desse amor é só uma lacuna. Sempre houve uma lacuna, entretanto sempre houve minha amada. Amada Amanda, onde foi que lhe perdi? Terá sido nas ruas cotidianas ou nos lugares a descobrir?
Quisera eu que há cinco dias o amanhã não fosse incerto. Agora choro. Escrevo. Choro. Pronto: meu sangue está em paz para jazer com ela.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Borba de Magalhães

Era inverno em Viana e eu, Lamar de Alcântara, quase não conseguia sentir a periferia do meu corpo. Viana do Castelo, uma cidadezinha no extremo norte de Portugal é famosa por suas casas em pedra, e um enorme castelo no centro da cidade. Fui atraído pela calma que o lugar inspirava, principalmente no inverno. Saí da movimentada Lisboa e por vários dias ficamos somente eu e os ventos cortantes daquele inverno rigoroso (como há muito tempo eu não experimentava)

Depois de dias solitário, escrevendo e bebendo ótimos vinhos, decidi que era hora de conhecer pessoas novas. Fui a um bar local. Não estava muito cheio. Somente algumas pessoas sentadas em mesas esparsas. A madeira antiga e escura e a iluminação precária davam um ar rústico ao local – Imagino que não de propósito. A temperatura interna era bem mais agradável e caixas de som velhas e desgastadas tocavam um fado a uma altura tolerável.

Acomodei-me num espaço vago do balcão e pedi ao velho, que parecia ser também o dono do lugar, um pouco conhaque e uma porção de bolinhos fritos. Prontamente pegou uma taça empoeirada no fundo de um armário, serviu-me e avisou que “os bolinhos já estavam a sair”.

Depois de alimentado e devidamente aquecido continuei a fitar os freqüentadores que haviam restado no local, afinal de contas as horas se arrastavam, e a noite já se preparava para engolir o dia. Algumas pessoas conversavam, outras bebiam e poucos se deitavam sobre a mesa a fim de dormir e curar a bebedeira precoce. Uma pessoa em especial me chamou a atenção; tratava-se de um jogador de dardos. Sujeito alto, que não parecia ser dali. Aparentava ser um pouco mais novo que eu. Feições simples, óculos, pouco cabelo e extrema habilidade em fazer pontos em jogos de dardos.

Dirigi-me ao sujeito e perguntei se queria companhia para um jogo amistoso. Desde idos tempos em pubs ingleses (mais precisamente em Bristol) que não atirava um dardo sequer. Antes de iniciarmos o jogo alertei-o de minha condição debilitada e falta de prática no esporte – tanto neste como em qualquer outro. Sorte melhor não me aguardava; fui derrotado com uma facilidade absurda.

Ao fim da partida, percebi que o homem falava em versos. Um trovador. Ofereci uma bebida em reconhecimento à vitória. Aceitou e então conversamos. Descobri seu nome: Borba de Magalhães. Também escritor. Também de Lisboa que tinha ido a Viana para tentar terminar um livro que começara escrever havia muito tempo. Tinha muita coisa publicada, tanto em poesia quanto em prosa, mas dizia que estava terminando uma obra prima. Fiquei absorto ao descobrir que o poeta tentava terminar este livro desde seus dezesseis anos (e acreditem, isso me pareceu ser bastante tempo, a julgar pela sua aparência).

Ao final da conversa, só restavam nos dois e um amontoado de garrafas vazias na velha taverna. Dei-lhe meu endereço em Lisboa e telefone para que pudéssemos manter contato. Nunca mais o vi.

Até que, já na capital, estava eu em uma livraria a divulgar um livro de poemas infantis encomendado por uma editora, quando de repente vejo bem em minha frente o atirador de dardos. Sim, Borba leu num jornal onde eu estaria, e achou que seria interessante prestigiar. Fiquei lisonjeado quando o vi segurando meu fino livro que acabara de comprar.

Após o assédio incomum de pais e crianças, conversamos por horas sobre diversas coisas. Apresentou-me algumas modernidades com as quais ainda não tinha contato. Dentre elas, esse diário eletrônico.

Propôs-me que escrevêssemos e publicássemos em um só lugar. Já conhecendo a capacidade literária de meu co-autor, aceitei prontamente.

Então, cá estamos escrevendo e publicando nossos rabiscos. Gostaria que lessem com tanto carinho quanto é escrito. Espero que gostem. Boa leitura